O tema colônias espirituais é um dos que mais despertam interesse e debate entre os Espíritas, sendo que uma parte dos adeptos defendem essa ideia, enquanto a outra a considera inapropriada.

Visando promover espaço para um diálogo respeitoso, onde todos os participantes pudessem ampliar seus conhecimentos, a USE Distrital Vila Maria realizou um saudável debate a respeito do assunto em 25.05.2024.

Para isso, os participantes foram convidados a pesquisar o assunto nas obras da Codificação Espírita, livros de outros autores, bem como em artigos e vídeos que falam sobre o assunto.

Conheça a seguir os pontos básicos levantados nesse encontro, que também ofereceu uma mesa deliciosa com chá e bolos.

As colônias espirituais

Segundo os participantes, a principal obra a citar as colônias espirituais foi “Nosso Lar”, ditada pelo Espírito André Luiz ao médium Francisco Cândido Xavier. Tanto que, para muitos adeptos, a colônia que dá nome ao livro é tida como uma espécie de “paraíso espírita”, para onde muitos desejam ir após findar a vida na carne.

Mesmo havendo outras obras que citam colônias e, ainda que uma rápida pesquisa na internet revele inúmeras cidades no além, nenhuma tem o protagonismo do local descrito por André Luiz.

Outro aspecto citado é que respeitados médiuns brasileiros afirmaram ter visitado colônias espirituais durante a emancipação da alma, sendo crentes na existência desses ambientes da Espiritualidade.

Contudo, o debate trouxe alguns pontos relevantes para reflexão. Entre eles:

  • A crença de um médium, assim como de todo Espírita, deve ser respeitada, mas não necessariamente acatada como uma verdade espírita, sendo preciso passar as informações pelos critérios criados por Allan Kardec – crivo da razão, universalidade da comunicação – e pela base doutrinária, que é a Codificação.
  • As descrições das colônias espirituais mostram uma rotina extremamente parecida com a material, incluindo necessidade de alimentação, remuneração por trabalho, muros para impedir entrada de Espíritos menos elevados, etc.  Em relação a isso, foi levantada a questão: se a cidade no além tem tudo isso, qual a necessidade de encarnar em um mundo material?
  • Há uma confusão em afirmar que os mundos transitórios, citados por Kardec em O Livro dos Espíritos (questões 234 a 236), são colônias, quando na verdade o Codificador refere-se a planetas não habitados por vida biológica, onde Espíritos errantes aguardam enquanto estão no espaço.
  • Da mesma forma, as sociedades ou famílias de Espíritos (LE – questões 278 e 279) são apenas grupos de Espíritos reunidos por afinidade, sem necessidade de qualquer construção semelhante a uma casa.
  • Já o Laboratório do Mundo Invisível, capítulo de O Livro dos Médiuns, trata de explicação sobre fenômenos mediúnicos de materialização e aparição, sem citação ao uso de fluidos para criar colônias espirituais.

Claro que os presentes levantaram outros questionamentos, mas destacamos esses pontos para mostrar que o debate foi profundo e interessante, sempre pautado no respeito e ética.

A Codificação Espírita e as colônias espirituais

A Codificação Espírita mostra o mundo espiritual como um ambiente onde os espíritos se reúnem de acordo com suas afinidades morais e níveis de evolução.

Portanto, a ênfase é colocada na evolução moral e na reforma íntima como caminhos para a progressão espiritual, e não em detalhes sobre a geografia ou uma estrutura e hierarquias organizada – com construções e itens como roupas, moradias, alimentação, etc., algo que demonstra forte ligação com a vida material.

A ausência de menções às colônias espirituais na obra de Allan Kardec contrasta com descrições mais detalhadas de obras psicografadas, focando  nos aspectos morais e filosóficos da existência espiritual.

Seguindo o que coloca a Codificação Espírita, não existe um espaço circunscrito, onde desencarnados gozam de alegria ou sofrimento. Os Espíritos estão por toda a parte, carregando consigo seu estado de felicidade ou não, segundo suas escolhas.

Vejamos a questão 1.012 de O Livro dos Espíritos: “As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos; cada um tira de si mesmo o princípio de sua própria felicidade ou infelicidade; e, como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito nem fechado é afeito a um antes que ao outro”.

Sendo assim, os Espíritos vivem no espaço, tendo apenas a limitação de sua vontade e de seu adiantamento para ir e vir.

Como relata o Espírito Van Durst, em mensagem contida em O Céu e o Inferno, “nada mais de corpo material, nada mais de vida terrestre: a vida imortal! Nada mais de homens carnais, mas formas leves, Espíritos que deslizam de todos os lados, giram em torno de vós e que não podeis abarcar todos com o olhar, pois é no infinito que eles flutuam! Ter diante de si o espaço e poder transpô-lo só pela vontade; comunicar-se pelo pensamento com tudo o que vos rodeia! Amigo, que vida nova!

Conclusão do diálogo promovido pela USE Vila Maria

Ao longo do encontro, foi esclarecido que a proposta não era mudar a opinião de qualquer pessoa, mas apenas entender o ponto de vista dos participantes, bem como refletir sobre o assunto.

Se Espíritos falam sobre colônias espirituais, decerto descrevem o que estão vivenciando. Mas isso não significa que esses locais foram “criados” por uma Inteligência Superior e que vão existir para sempre. O mais provável é que sejam plasmados para receber desencarnados que necessitam daquela estrutura para ficar melhor.

Ou seja, são locais ainda muito ligados à matéria e Espíritos que conseguem se desprender dela, só precisam do espaço para dar continuidade à sua jornada evolutiva.

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